isso e aquilo







Um pedaço de céu - uma gota de chuva
Uma onda perdida - uma sombra obscura
Um raio de sol - uma manhã dourada
Uma flor que encanta - uma doce lembrança
Um olhar cabisbaixo - uma moça tímida
Uma boca sedenta - uma alma aflita
Uma vontade de ter - um desejo secreto
Um pássaro na mão - um relato impresso
Uma doce canção – uma grande paixão
Um varal de cores – um quintal florido
E na grande mistura surge a paisagem construída:
a poesia.



Paulo Francisco

passagem




Ontem a saudade chegou azul
montada na crina do vento
chegou em  movimentos
circulares
pintou e bordou por aqui.

Hoje ela passou azulada
montada na crina do tempo
Chegou e foi-se a terabytes.
Fiquei branco – limpo
lento - desconectado
a quase  ZeroBytes.

Paulo Francisco




Meu Primeiro Amor by Maria Bethania e Caetano Veloso on Grooveshark

exceção




Nesta paisagem de tons fortes e vivos
de
 casas brancas e janelas coloridas
de
 mata verdejante e  pássaros azuis
de
 flores lilases e amarelas
de
 luz vermelha na varanda
de
 olho verde a espera
de
 olho negro a espiar
de
 moços e moças de preto
de
 jovens coloridos e de velhos também
de
 céu mais branco que azul
de
rios mais negros que ontem
de
viúvas alegres e floridas
de
sol laranja e lua vermelha
de
ardentes cometas e pálidos medos
de
peles amarelas e de peles vermelhas
de
todos os tons
de
qualquer cor, exceto o branco, o preto e o cinzento.


Paulo Francisco


outra vez



E de repente a tarde anoiteceu
e o que estava claro toldou-se
e o que estava seco molhou-se
E de repente alagou-se o dia
e o que existia perdeu-se na madrugada.
E o de repente se repete ano a ano
e ninguém mais se espanta com nada
- acostumou-se de repente com a desgraça.

Paulo Francisco




Sobradinho by Sá, Rodrix & Guarabyra; on Grooveshark

Temporal






Tudo outonal
com temporal
e tudo!
Tudo cinza
encimado de chuva
Tudo alagado
abaixo de mim.
É o clima
É a crina do vento.
É o clima-tempo
Tudo outonal a partir de agora
até a próxima estação invernal.
Tudotudotudo
Doidodoidodoido
como eu a  escrever o texto
debaixo do guarda-chuva.

Paulo Francisco

embaraço







Manchaste de vermelho
a camisa branca que vestia
E agora?
o que direi sobre este fato,
àquela que de fato a camisa pertencia?

Paulo Francisco

identidade






Neste mundo de invenções instantâneas
de
poemas computadorizados
de
solidões compartilhadas
de
disfarces programados
de
velocidades terabytes
de
amores combinados
de
amigos inventados
de
curtir de montão
de
mortes súbitas
de
torpedos
de
medos
de
Ainda continuo tendo: carne, osso e alma
Ainda continuo sendo: Paulo Francisco de Araújo
compartilhando o que há melhor de mim.
[e o pior também]

ciranda






É só uma canção
que fala de cores
que fala ao coração
os sabores da paixão
É só uma declaração
ao meu amor moreno
[sereno]
que gosta de cantar.
E é na roda que a morena encanta
- Ela sabe sambar.
E com sua saia rodada azul celestial,
ela me deixa tonto de tanto pensar.


Paulo Francisco

sinestésico




Tudo permanece claro
como água que brota
da verde pedra.
Tudo permanece calmo
como  o silêncio  negro
da noite.
[e sua pele branca desperta
com a quentura da minha respiração.]
Tudo permanece em cores
no meu quarto à meia-luz.
E sigo o caminho a ser explorado
como  um estrangeiro  no lugar.
E antes do banquete principal
 experimento sabores e cores
- sinto teu cheiro de rosa chá.


Paulo Francisco

natural







Rejeito a monocromia
quero as cores da vida
quero as cores do mundo
- rejeito a melancolia
Antes fôssemos multicoloridos
pintados de vermelho do urucum
do azul, extraído do jenipapo verde
do branco,  do calcário macerado
e do preto,tingido pelo carvão.
Rejeito a monocromia - quero as cores do passado
Quero voltar a ser índio e andar seminu pelas florestas da vida.
Só não quero ser exterminado por aqueles que por aqui habitam.


Paulo Francisco

buquê





Entre as flores amarelas
estava ela
colhendo as mais belas
do jardim.
Guardando-as com jeito num cesto
era tão claro o arranjo proposto
verde, amarelo e a palha do cesto.
Era tão clara a minha visão
o verde, o amarelo, a  palha e ela
a mais bela de todas as cores.

Paulo Francisco

Acalanto






Em teu colo adormeço
repouso menino
de sonhos vivos
e de belas canções
Em teu colo permaneço
pra sempre
nas cores de teu coração.
Gosto de estar quieto
de olhos fechados
ouvindo o seu corpo
conversando com o meu.

Paulo Francisco

Palheta




No meu varal de cores
eu tenho o verde
o branco e o bordô
Tem todas as outras cores
Só não tenho a cor do desengano
do desespero
que é a cor do burro quando foge.


Paulo Francisco

Grito

Amor guardado corrói
dói
é vermelho disfarçado
é lua escondida
é nuvem condensada
é doença de morrer
é espelho sem aço
é fracasso na vida.
é câncer florada a corromper
é peito inflamado
é  alma rarefeita
é tristeza no ar
Amor guardado machuca, enruga, suga, definha, desespera, crema.
Amor guardado é segredo abafado
Então, eu me declaro: Amo você.


Paulo Francisco

Esconderijo

Quando voltei a olhar
ela já não estava mais lá
desaparecera por trás das montanhas
azulara de meus olhos

ela, a lua amarela, certamente fora descansar. 



 Paulo Francisco

Simples mente

Maria voltou da praia
ligou-me e danou-me a falar
Ouvi o que ela dizia até cair
a bateria do celular.
Não pude dizer-lhe que os meus dias
foram de pura monotonia
pois não a tinha para me alegrar
com suas cores vivas.
Maria voltou da praia – ganhei o meu dia.
Tudo ficou mais azul até a chuva desse dia.

Paulo Francisco

Mal de amor


Antônio Carreiro anda perdido
anda aflito
ele só pensa em namorar
Separou-se há pouco tempo
ainda não chorou
só praguejou o que já fora seu lar
Coisa de macho (segundo ele)
homem não deve chorar
Coitado!
Depois de tanto tempo
de um currículo extenso
já passou por tantas outras
ainda não aprendeu
que pra viver a dois
tem que haver consenso
tem que haver senso e perdão.
Cuidado amigo! Rosa não é azul
mas se misturadas azul rei é o que vai dar.
Antônio Carreiro anda perdido nas cores do arco íris.
- Não sei onde ele vai parar.

Paulo Francisco

eco




E Caetano canta no canto da casa
Ele canta o canto do pássaro
antes proibido de cantar
E Caetano canta, encanta-me
com sua Rai das cores
com seu Trem de cores
com o amarelo e o seu blues
E ele canta e eu acompanho
desafinado
cantando no outro canto da sala
para o meu encanto de amor.

Paulo Francisco

gata




Eu estava apaixonado
machucado
vermelho de dor
E ela esnobou , me esnobou, esnobou sim
Eu estava totalmente de quatro
apaixonado
querendo além de uma transa
crianças
correndo pelo corredor
Mas ela esnobou - esnobou sim.
Eu estava pra afiliar e ela pra finalizar.
Nada afins.

Paulo Francisco

sukita




E seus cabelos prateados
alados
ao vento solto
dançam na fina melodia
E quem diria (ao meio do dia)
paquera as meninas
na calçada branca e preta
da cidade
Idade – duração ordinária da vida.

Paulo Francisco

mesa de bar





Drummond entre os meus olhos
preso pelas minhas mãos cansadas
ao som das batidas certeiras
de meu coração escarlate
doa-me seus versos
numa tarde quente de verão.
E ao término da canção amiga
desperto-me
pra mais uma cerveja que me aguarda
estupidamente gelada no frio balcão
E eu virei a página – e eu abandonei Luísa
Segui sem noticias reais de Espanha
segui num silêncio disfarçado
numa concentração negra fosca
num ¨negro jardim onde violas soam¨
E um pouco mais tarde avisto Fátima a sorrir
a sorrir pra mim.
E na mesma direção seguimos
cada qual com o seu destino a cumprir.
E no absolutismo da canção, também me calo, repleto.


Paulo Francisco

longe





Ando preso na amplidão do mundo
Perco-me na imensidão do tempo
Estou adverso a tudo - ando querendo ficar
Tento agarrar o vento na esperança de voar
Tento guardar a luz na esperança de enxergar
Estou adverso a tudo - fico querendo andar
Pinto de vermelho o que antes era azul e o roxo furta a cor
Ando meio maluco sem saber pra onde ir - sem saber se vou.
E quando paro ao espelho sou o próprio estrangeiro a se admirar.


Paulo Francisco