Poesia









Ela estava parada -  plantada na calçada
Quem era ela? Perguntava em silêncio
Era uma folha sem direção esperando ser empurrada pelo vento?
Os seus pensamentos flutuavam como as brumas no céu?
Era um ser de verdade? Ou a minha imaginação era maior que ela?
De fato não sabia se era delírio da minha parte ou ela realmente existia.
Mas a quem importa tudo isso:
Há loucura no poema?  Ou estragaram o Universo?

Era fato: algo acontecia.

Paulo Francisco

Solidão








Toda vez que olho para uma casa vazia
 lembro-me da minha:
nenhum móvel
nenhum objeto valioso
- nem mesmo o mais barato dos bibelôs
os meus livros desapareceram
- restando-me poeira
as minhas roupas também sumiram
- restando-me somente a derme
Da casa restaram-me os cômodos
- os vários cômodos e ecos
Afoguei-me em oxigênio
Cobri-me de vazio
Toda vez que olho para uma casa abandonada
- não importa se cabana ou palácio
- lembro-me da minha anos atrás.
Quando nu e sozinho conheci um outro gozo na vida.

Paulo Francisco

Delírio

















À semiluz no quarto
Jaz um corpo rugoso
Na clareza externa
renasce alado o corpo
antes adoecido.


Paulo Francisco

Disfarce





Quando te olho me estremeço
por dentro -  fragmentos
por fora- inteiro

Paulo Francisco

Momento















olho no olho
tetê- à- tetê
mão na mão
 corpo a corpo
- de quando em quando juntamo-nos
pra nos separarmos depois.

Paulo Francisco

Atrasado












O dia nasceu de repente
De repente o sol já estava alto
as imagens já estavam velhas
- o dia se foi e eu não o vi.


Paulo Francisco

Condição















Há muito não sigo o vento
Deixo-o passar em paz
Reservo-me a olhá-lo em silêncio
invejando-o em meu íntimo
por não ter asas, por não ser leve
- Por ser simplesmente Homem.




Paulo Francisco

Mutação

Solto...Livre  e leve.
Sem memórias
sem futuro, passado e presente.
Simplesmente absorto no vazio.
Renascendo aos poucos.
Criando novas imagens. 
Um novo código?
Um novo ser?
Somente um sonho?
- Talvez... Mutante!

Paulo Francisco

Passo - a - passo















Sim, Maria, ainda na mesma.  Olhando as estrelas do mesmo lugar.
Às vezes, muito raramente, um passo aqui e outro acolá.
Banho de sol quase nunca; de chuva nem pensar.
Mas há esperança. A bola de ferro foi retirada. Já posso divagar.
Ainda vejo o céu pela janela com esperança de um luar.
Aos poucos, Maria, eu vou caminhando em pensamento
Menos lento, sem lamento, com vontade de voar.



Paulo Francisco

Interior


O dia nasceu claro e quente
Azulou e dourou o inverno
Aqueceu-me de esperança
Libertou-me. Deu-me asas

Pelo menos por dentro.

Paulo Francisco

Ilusão

São nos meus versos não verdadeiros
que estão os meus devaneios
as minhas vontades
os meus quereres impossíveis
- dos profanos aos sagrados
Faço dos meus versos falsos o meu espelho
-  É nele que procuro a minha verdade



Paulo Francisco

Pausa

Ultimamente as minhas semanas só têm domingos
Não domingo de sol, parques e caminhadas
São domingos invernais de chuva fina
Ultimamente as minhas semanas se tornaram passivas
esquisitas e inúteis. Semanas de recessos e pontos facultativos.
Quem diria que esse vagabundo que escreve, sentiria saudade
- Não da boemia ceifada, mas sim da labuta diária.
Os meus domingos ficam ansiosos pela segunda-feira de cada dia...
Que nunca chega.

 Paulo Francisco

A sós

Não tenho nada além da sacada
Não vejo nada
Não escuto nada
Não sinto nada
Não tenho nada além dela
A não ser escuridão sem lua e estrelas.
Não tenho nada além de mim
Mas dentro há sonhos.

Paulo Francisco

Tudo ou nada!


Nada me dói - Tudo me dói
É um latejar de dor/de alívio
                   de alívio/de dor
Às vezes estanca-se como a neve no cume da montanha
Às vezes esvai-se como um rio em queda livre
Nada me dói - Tudo me dói
É uma mistura absurda de amor e dor.

Paulo Francisco

Dores

É tão verdadeira a minha dor que aos olhos alheios não passa de farsa a minha dor física. Expurgo-a de mim aos berros.  Berro como criança que ao senti-la grita, pois não tem ainda a palavra pra exprimir tamanha infinita dor. São tão verdadeiros os meus gritos que somente aos céus parece ser verdadeiro o que sinto. 

Paulo Francisco

Insônia

Cubro-me com a manta
 do amanhecer.
Talvez eu durma
 – ainda não sonhei.

Paulo Francisco

Day by day

O dia amanheceu denso e tenso
Denso e gelado/Tenso e calado
O dia amanheceu como ontem
Como ontem do ontem do ontem do ontem do ontem
Amanheceu frio e alagado. Carente de Sol.
Os raios que invadem o meu quarto todos os dias
já não aparecem há muitos. Estou carente deles pela manhã.
O dia anda amanhecendo sem os raios dourados dos outros dias
mas mesmo assim ele sempre amanhece Iluminado.
Um dia eu serei como ele.

Paulo Francisco



Manto

O ar amanheceu pesado. Carregado de tristeza.
Trouxe consigo o cinza cobrindo quase tudo
as montanhas verdes, o céu azulado, as casas coloridas
os transeuntes encolhidos e principalmente os meus olhos.
O ar amanheceu pesado, triste e cinza. Mas amanheceu...
Amanheceu como eu.

Paulo Francisco

Olhar

Olho para baixo e vejo o nada
banhado de sereno e silêncio
Madrugada triste. Triste como eu
triste como o meu silêncio pardo
triste como a calçada orvalhada
molhada e abandonada.
Olho para baixo e vejo o vazio
adornado por coisas de Deus.
Coisas tristes e silenciosas
Tristes como eu
e silenciosas como Ele.

Paulo Francisco

Razão














Às vezes eu deixo tudo pra depois
para daqui a pouco
pra depois do meio-dia
para nunca mais
Às vezes eu deixo tudo pra depois
- de propósito
Porque, às vezes, eu tenho medo do agora.


Paulo Francisco

Trovador















Vagava no tempo pisando em estrelas
- deixando rastros e confissões
Sim, andava distraído - seguia o destino
tão desconhecido como o amanhã.
Sim, o tempo não para, mas pode andar devagar.

Paulo Francisco

Oposto

Depois do acontecido, depois da massa crescida
-  a revelação:
Imobilização involuntária,
cárcere privado - dor sem fim.
Lá fora: chuva, sol, vento, lua e estrelas.
Há flores no jardim.
Aqui dentro: ossos quebrados, cama colada às costas, dedos cansados e feridos, pernas dormentes, cabeça cheia de vento e olhos que lacrimejam sonhos.
Lá fora, há flores, cores e cheiro.
E os gatos sentados no muro, olham curiosos, e se perguntam desconfiados se o corpo espichado ainda está vivo.
Lá fora há de tudo: vento, buzinaços, crianças, cores e flores.
Aqui, só comoção.

Paulo Francisco

Instante

A cada instante um novo tempo.
Noite que parte, luz que chega
-  escuridão invadida
- claridade parida
A cada instante um vulcão detona
lavas que mumificavam
 criando novos destinos.
Ela era o tempo-instante que todos temiam.
Redemoinho repentino
 -  Puro desatino!
A cada instante um novo tempo.
Neste tempo-instante a constância não existia.
As nuvens correm soltas
enfeitando o céu azul - prometendo chuva
dizendo sim ao lavrador
dizendo não aos vagabundos como eu...
 Já no balanço da rede
 ouço
¨Le ciel dans une chambre¨
com uma taça de vinho tinto à direita
e Rimbaud na mão esquerda.


Paulo Francisco

Solução

Como não posso correr em trilhas sinuosas, pular as ondas espumosas e muito menos dançar na chuva. Resta-me, então, ficar à sombra de pernas pro ar.


Paulo Francisco

Alternativa

Neste período certo de inércia indesejada. Vou levando na flauta. Pois o piano tá difícil de carregar.

Paulo Francisco