Música

poema

Dissonantes?
Desarmonizados?
- Que nada!
Estava bem cadenciado
e muito bem orquestrado.
Quem disse que gritos de amor
têm que ser afinados?


 Paulo Francisco

Nós














Nos laços de meus versos
abraço-te apertado
 e os nós em beijos
amarram-te pra sempre...
E dentro de meu peito
- o presente.


Paulo Francisco

Outro Porto
















Numa viagem imprecisa
[ à deriva ]
levado por ventos nervosos
sacudido por ondas repetidas
chegou quase morto à terra firme
Havia coqueiro e água de coco
Havia pássaros verdes e vermelhos
e uma brisa a cantar
Também havia montanhas cobertas de verde
rio de água pura, cavernas desabitadas
e a solidão para lhe assombrar.


Paulo Francisco

O Porto



Inércia.
Perdido num tempo lento, sem vento - calmaria.
Tudo parado, nenhum som - paralisia.
Nenhum movimento... pura agonia
Desespero - tudo mudo - surdo, absurdamente escuro
Coração enfermo, desgraçado, desvalido, abandonado, ferido,
Tudo estático, calmo... vencido
Tudo pálido, cinza, quebradiço.
Tudo longe, ao longe... perdido num tempo esquecido
[Inação...]
Não há sangue
Tudo escuro, sem ar, corrompido.
Tudo morto... vazio, sem brilho
- Alma perdida.

Paulo Francisco

Quase

Pálidas
quase brancas
se não fossem amarelas
Cálidas borboletas
quase mariposas
se não fossem diurnas
Noivas
quase bruxas
se não fossem vespertinas
Misteriosas
quase mulheres
se não fossem meninas
Pecadoras
quase castas
se não fossem abandonadas



Paulo Francisco

Click






Dois cliques – duas imagens
Duas mulheres  - dois olhares
Uma no sul – outra no norte
Ambas fotógrafas
de céus e de mares


Paulo Francisco

Carinho

Eu não sei se o que faço de imediato é o mais correto
mas é a única coisa que de imediato tenho pra fazer
- abraçá-los antes de ouvi-los.
Porque o abraço é para mim o mais verdadeiro dos gestos humanos
- ele é um beijo de corpo inteiro.

Paulo Francisco

Adverbial

De tempo em tempo
penso-te
De quando em quando
sonho-te
De repente
vejo-te
E muito raramente
esqueço-te.


Paulo Francisco

Verbal (II)

A palavra cita
excita
Contra (é) dita
Lavra
cala
escala
Escalda na orelha
Ela tarda, mas chega.

Paulo Francisco

Verbal (I)

Gosto do que está escrito
do que pode ser visto
Gosto do que foi dito
e o quase não dito
Gosto do que vejo
do que sinto
pode está sublinhado
ou 
em negrito
Gosto de segurar
apalpar
remexer
Gosto do imoral
do sublime
da verdade
da mentira
Gosto do desejar
de obter
de ofertar
do olhar
do sorriso
Gosto do sonho bonito
da realidade crua
da mulher nua
Gosto do mar
da mata
da rua
Gosto da palavra Gostar


Paulo Francisco

Fântaso






As tardes cobrem o meu corpo com a suavidade da sombra
[alimentando-me de sonho -  eu durmo]
Ativo minha alma que viaja em cenários:
de Akira  Kurosawe e de Michael  Gondry
Em tardes calmas, agito-me em sonhos
– viajo além dos meus olhos
Sigo em viagens no limiar da realidade
- a real condição de meu ser.
À tarde, cubro-me de cores: alucinantes ou não.
Mas quando acordado, em meu quintal,
sonho em branco e preto o colorido da vida

- Sonho-te!



Paulo Francisco

Contexto

As palavras fragmentaram-se no ar
Tornaram-se vogais e consoantes livres
à espera de novas junções
- de novas ideias
- de outras mãos
- de outros braços
e corações
Os sinais soltos no ar
seguiram com o vento
semeando outros campos
Formando outros pensamentos

Formando ... outros textos

Paulo Francisco

Por mim

Ela continuou estampada à minha retina
Insistiu em ficar grudada em meus pensamentos
Já era manhã. O céu imprimia um azul vertiginoso
O vento chegara balançando as folhas, expulsando nuvens.
E o sol devagarzinho desenhava o meu dia.
Ela continuou estampada na minha retina
- transformou-se em menina pra nunca mais me deixar.


Paulo Francisco

Super

E quando os meus olhos clarearam
A lua surgiu mais próxima do horizonte
Surgiu mais iluminada

Mais próxima de mim.


Paulo Francisco

Tempo

Não era  dia - Não era noite
Era o intervalo  entre as duas partes
- um momento crepuscular
A despedida e a saudação de algo além-mar
Uma solidão colorida se esvaindo em estrelas
Cobrindo os meus cabelos negros e a minha pele fina
Uma solidão necessária e válida!
Porque a minha alma precisa do silêncio
do pendular da rede
do  som do ranger do vento
Não era dia – não era  noite
Eram os meus olhos embaçados à espera do luar.


Paulo Francisco


Outrem

Já não estou tão triste como ontem
Talvez esteja menos ainda amanhã
E quando menos esperar... sorrirei
Sorrirei um sorriso frouxo e inocente
Um riso largo e descompromissado
Já não estou tão perdido como ontem
Talvez esteja muito menos amanhã
E de repente num acordar manso
Descubro-me ao lado de alguém
Não um alguém de ontem
Mas um alguém de amanhã.

Paulo Francisco

Companhia

As palavras em noites enluaradas criam asas douradas
Elas voam  e conversam com as estrelas faceiras
Elas surgem como o vento surge no jardim
- espalhando aroma e semeando o mundo
As palavras são como alimentos necessários
-  nutrem e aquecem
Hoje, as palavras chegaram de cachecol
aquecendo meu pescoço
protegendo minha boca
- envolvendo-me por um todo
Hoje as palavras chegaram espantando o frio
Criando laços e cobertores.



 Paulo Francisco



Insistência



Maria, caminho devagar olhando para baixo
à procura de algo que perdi meses atrás
à procura de algo que me diga que vale a pena
como os musgos entre as rachaduras das calçadas
como os pteridófitos que enfeitam os muros molhados
dizendo-nos em verde-vivo que há esperança no ar
Sim Maria... Já sigo – ainda que devagar
E devagar. Maria, divago em caminhos estreitos e lodosos
E devagar, Maria, me amparo em muros enfeitados por samambaias e liquens
Ah Maria! Ainda que em passos lentos, sigo o estreito caminho
- vou sempre em frente! Tenho que caminhar
Se com pedras, pedriscos ou grandes rochas – tenho que caminhar
Desvio-me de umas, desvio-me de outras, passo por cima – tenho que caminhar
Ainda não consegui escapar dos eletrochoques e montanhas de gelos

Mas tu bens sabes, Maria, que não há tortura que nos faça parar.

Paulo Francisco
Unicornio by Mercedes Sosa on Grooveshark

Esperança

Para Maria


Há uma secura na alma. Nela, não se brota nada.
Nem mesmo ervas daninhas - nem mesmo o seu ectoplasma
Há uma secura rachada à espera de algumas lágrimas.
Há uma urgência latente de ventos e nuvens carregadas
de elementos biogênicos pra sua nova jornada.
Há uma secura desesperada
 à espera da panaceia que ainda possa curá-la.

Paulo Francisco

(às 22: 51)
Como la cigarra (live) by Mercedes Sosa on Grooveshark