Certezas





Gosto dessa coisa descompromissada
do despertar ou não
do adormecer ou não
do estar e não se ser visto
do não estar e ser lembrado
ou o contrário de tudo isso
Ser um risco
uma trama
caminhos sinuosos
galhos que contorcem a procura do sol
folhas caídas cobrindo o medo
Dessa coisa abstrata que se funde ao imaginário
um velho barco
uma teia fina tecida por mãos grossas e pesadas
uma trama delicada e perigosa enredando a paisagem
da lâmina riscando a pele
do frio sendo dissipado pelo calor
da janela aberta na esperança de uma brisa
da aterrissagem absurda de um besouro
dos olhos curiosos de quem não entende
da boca maldita que peca por não saber
Gosto dessa coisa descompromissada
incerta
sem começo, meio e fim.

Paulo Francisco

Sem convite



Quero que ela chegue-me mansa
noturna
num céu de lua forrado de estrelas
que acaricie meu rosto pálido
e beije-me as faces
e com seus dedos longos
feche os meus olhos lentamente
Mas antes de levar-me pra longe
que permita-me pela última vez
sonhar com aquilo que sempre
desejei.
Ah, a morte que carrega consigo
a dura tarefa de nos transportar
Que é evitada por todos
Mas que não tem jeito
um dia há de chegar.
Então que me chegue mansa
e carregue-me em seus braços
para o fundo dos céus
e me deixe sentado em uma estrela branca
e que de lá eu possa olhar para os meus.

Paulo Francisco

Um olhar




O sono se foi de madrugada
Não tentei buscá-lo de volta
Não virei para o outro lado
Não reclamei baixinho
Sim-ples-men-te- a-cor-dei
Observei o raiar do dia
O sol chegando manso
As cores se transformando
O silêncio se rompendo
Os sons crescendo aos meus ouvidos
Acordei de madrugada
e
da minha varanda
testemunhei a vida.

Paulo Francisco

Cadente

Estrela que cai
no
mar da Espanha
em
Copacabana
do
céu da boca
do
céu marinho
e
 ilumina o caminho.

Estrela  que  cai
e
enfeita
 a

 p
                o
e
                s
i
                a
.




Paulo Francisco

Fora do ar

Permaneço prostrado amarrado à cama
Antes das sete não acordo
permaneço morto - morto de sono
Se de olhos abertos, é disfarce
- ainda estou sonhando.


Paulo Francisco

Passageiro











Pássaros e borboletas
flores e abelhas
ventos e folhas secas
mares e cachoeiras
trilhas e rumos
Tudo preso
Tudo guardado no peito
- Será o fim?
Estou triste
calado
cabisbaixo!
desnorteado
fora do prumo
meio triste
meio perdido
um tanto cansado
à procura de uma metade
arrancada de mim.
- Será o fim?
Fim de uma procura?
Fim de um ciclo?
Fim de uma prisão?
Talvez sim
Talvez não
Têm dias que fico assim:
na contramão.


Paulo Francisco

Luz e sonoplastia





Os raios surgiram entre os galhos cobertos de folhas
Invadiram e clarearam o meu caminho e destino
O vento trazia, aos poucos, o ronco da cachoeira
A natureza orquestrava a sua diversidade
Folhas chocalhavam
Galhos rangiam
Grilos tritinavam
Sabiás cantavam sem parar
Os Bem-te-vis com outros passeriformes saudavam-me em canções
 E as batidas do meu coração humano e sozinho os respondiam naturalmente.
[Os raios surgiram invadindo a minha alma e clareando o meu dia.]


Paulo Francisco