Lêmures




Os fantasmas dormem sobre as páginas da vida
Símbolos borrados pelo negro de fumo
Descansa junto às folhas pardacentas
A gata malhada
A frase mal acabada
O redemoinho
Os fantasmas dormem sobre as páginas escritas
Palavras desenhadas pelos olhos do menino
Histórias contadas pelos dedos cansados
do  homem – velho
do velho  - menino.

Paulo Francisco

Memorial





Folhas amareladas
quase  quebradiças
Guardadas no escuro
no fundo da gaveta
Registro de um tempo
Vestígio de um momento
quase menino
Folhas apagadas
amareladas
quase destruídas pelo destino



Paulo Francisco

Diário






Todo dia é dia do índio
da mulher
do negro
do amarelo
do branco
do vermelho
da criança
do idoso
damãe
dopai
dos irmãos
dos primos
da tia
do tio
dovô
davó
Todo dia é dia de todas as profissões
Todo dia é dia de Fé
de esperança
de certezas
[de incertezas também]

Todo dia, certamente, é dia de poesia.




Paulo Francisco

Recomeço




Toda tristeza se transformou em calma
Toda decepção se transformou em esperança
Toda raiva se transformou em alegria
E o abandono se transformou em caminho

Paulo Francisco

Bagagem









Não tinha nada
Não queria muito
Somente aquilo que coubesse em sua mente
Não tinha muito
Não queria nada
Além daquilo que guardara na alma

Paulo Francisco

Lapidação

















As palavras foram lavadas pela chuva
Cobertas pela escuridão da tarde
Deslocadas pelo vento forte
Eletrizadas por relâmpagos azuis
As palavras se transformaram em outras
Em outras
Em outras
Em outras
Até se fixarem para sempre no peito do poeta
As palavras se transformaram em poesia


Paulo Francisco

Natural




Desprendeu-se da terra o cheiro guardado
Da abstração visionária surgiu o sonho
Era  palha forrando o chão
Era esteira trançada à mão
Era ele escutando o Japão
Dentro de uma bolha invisível,
sombria, aquática, uterina
cercado de folhas e de gente,
o homem dorme como um menino
encharcado  com o som do rio.


Paulo Francisco