Lira



Em noites frias de céu transparente, o poema se aconchega no colo da lua
vermelha - cheia de paixão
 Em noites frias de céu marinho, o poema segue os rastros das estrelas
 impetuosamente azuis
 Em noites frias de outono, o orvalho reflete do céu o poema, a lua
e as estrelas mais amorosas
 Em noites assim - de céu verdadeiro - o trovador caminha
 pensando sozinho na sua dor.



Paulo Francisco

Delírio



Meus olhos noturnos, mais negros e mais brilhantes
enxergam além da lua, enxergam além das estrelas
Em noites de insônias e alegrias cósmicas
meu corpo ferve, ferve, ferve e não queima
Meus olhos em madrugadas estreladas
brilham em lâmina d´agua azul marinha
e os nossos corpos naufragam
num inconsciente duplo.

Paulo Francisco

Alva
















O dia chegou amarrado em laço de fita
dourada
azul
brilhante
O dia chegou num arranjo floral
aromático
colorido
poético
romântico
O dia chegou abraçando o mundo
clareando os olhos
cobrindo a  pele
ratificando o ontem
retificando tudo

Paulo Francisco

Transformação



A poesia nasceu em gema  - Cresceu aos olhos de quem a leu
Para muitos se tornou flor - Para outros continuou botão
Para uns se fragmentou em pétalas - Para outros se projetou ao chão
Para alguns se modificou - E para outros se tornou construção
A poesia nasceu livre – voou além dos olhos de quem a escreveu.

Paulo Francisco

Confiança



















Não trago nas costas o violino vermelho
Não ando sorrateiramente espreitando tudo
Não me alimento de almas alheias
Não carrego em mim a peçonha do mundo
Afaste-se pra bem longe com a sua teia
Não serei sua vítima – sua pretensiosa
Mesmo com as minhas asas pequenas
 Voo livre nesse mundo grande
Não carrego comigo nenhuma arma
 - Exceto a Fé em mim cravada
De que um dia tudo será diferente
 - Pois a verdade será revelada.
Você com sua rede viscosa,
E eu com a minha pena alada.



Paulo Francisco

Instinto




Vestida de preto com detalhe em vermelho, silenciosamente espera o seu parceiro
Caminha sorrateira pela seda rendada, verificando cuidadosamente o seu banquete
E quando o macho desconfiado chega, presenteando-a com mais seda
Mesmo depois de ser aceito, mesmo depois dela entregar-se a ele totalmente
O desespero lhe bate de repente, e na pressa de abandoná-la, o  coitado sofre um acidente
Perde o que tem de mais precioso  e a morte lhe chega prematuramente
E a dama mesmo cansada e desolada, vendo seu parceiro morto na sua frente
Sente a necessidade de tê-lo pela última vez. E num impulso natural, o devora totalmente
Afinal de contas, a viúva precisa ser bem alimentada para carregar os seus descendentes.

Paulo Francisco

Ciclo



Na ponta do fio viscoso,
a predadora espera sua vítima
Encantada com a sua refeição
– a tola se descuida
Acabou comida por uma lagartixa.
E a borboleta que por ali passava
bateu asas num voo colorido.

Paulo Francisco

Tecelã




















A aranha tece a teia
v
a
g
 a
r
o
s
a
mente
constrói a sua arte
armadilha viscosa
geometria fatal.

Paulo Francisco

Sedução


















Gosto da zona arquitetônica
da bagunça criativa
do caos que explica

Mas cada qual no seu quintal.

Gosto da teia humana
da rede da aranha
que emaranha a minha cabeça
num assanho colossal.

Paulo Francisco


Movimento




Desce e sobe pelo fio
num balé acrobático
Movimenta-se aracnideamente
ora lento
ora rápido
Enrola-se na seda brilhante
e se deixa cair num desenrolar
mortal
para os olhos de quem a assiste.

Paulo Francisco

Sopro


















Tudo estava tão distante
tão longe de meus olhos
tão longe de minhas mãos
tão longe de minh´alma
tão longe de mim
Tudo estava tão parado
abafado/acinzentado
naquele domingo solitário
choroso/vazio
ao longe  - sem vida
Estava quase tudo morto se não fossem
o canto dos pássaros no quintal e a aranha vizinha.



Paulo Francisco

Paralisia













Limpei meu nome, lavei o corpo no rio quente
joguei ao vento desejos
Enfrentei a chuva lá fora e gritei
Esperei respostas/O tempo disse: Não!
Paralisado fiquei na roda do tempo
Na roda do amor - Desilusão...
Poeira acumulada na sala
teias enfeitam os quadros na parede
Paisagem amorfa - flores e jardim
Aranhas malabaristas/artistas
que dançam... dançam...impunemente
em meu corpo acinzentado de dor.


 Paulo Francisco

Construção















A teia crescia a cada dia.
Construção milimétrica,
estrutura geométrica,
 a inquilina fazia.
[Construindo a sua casa
 recobria a minha.]
A teia crescia a cada dia.
Rendada a casa.
A casa se rendia
a renda da vizinha.

Paulo Francisco

Cilada!


















E as carapaças se juntam
ocas
marrons
na teia da aranha
Na teia da aranha há o desespero
a morte  inesperada
de quem pensava que voava  livremente.

Paulo Francisco

Tal





Traços firmes e delicados
passeiam na folha branca
do papel. Cruzam-se suavemente
entrelaçam-se centenas de vezes
imitando a arquitetura aracnídea
construída do lado de fora da casa.
Ela pacientemente caça.
Ele, esperançosamente, procura
a saída da teia que habita.



Paulo Francisco