Fatal





Serpenteia em minha frente
Sua cobra mortal
Enganando muita gente
Você é fatal

Comportamento elegante
Com seu visual
Cores penetrantes
Camuflagem total

Igualmente como a naja
Sua peçonha é uma desgraça
Paralisa a nossa mente
Certamente nos mata

Não duvide de seu jeito
Tampouco da identidade
Surte o mesmo efeito
A sua integridade

Falsa ou verdadeira
Não importa mesmo não
Preservando a natureza
Tu não perdes a razão

Passando em sua frente
Deixe ir o animal
Ele é somente uma cobra
Uma cobra-coral!


Paulo  Francisco

Irresoluto





O gato subiu no muro
Andou de um lado pro outro
sempre olhando pro céu
Indeciso voltou ao chão
Andou de lá pra cá
Sem saber o que fazer
parado ficou a olhar
a lua desaparecer

Paulo Francisco

Importado do Cores e Nomes

Alma felina




Partidas e despedidas fazem parte da vida
então não venha, meu amor, com essa tristeza
cheia de nobreza - dizendo que eu não ligo
Te digo: foi bom enquanto durou
mas eu sou mesmo assim - não me fixo
sou do mundo
as correntes já foram quebradas
E com as asas brotadas navego em ares quentes
plano/voo/não corro/caminho em estradas sinuosas
não importa se tortuosas
sou vagabundo que se apaixona em cada esquina
sou volúvel
sou vadio...
Fui simplesmente um gato em teu telhado de zinco.

Paulo Francisco

Importado do Cores e nomes

Ardente



Não segui para o Oriente
Não cruzei oceanos
Não viajei de trem
avião ou navio.
Não voltei do Ocidente
Não estava doente
Nenhuma moléstia latente
- aparentemente estava vivo.
Meu coração batia no compasso
da normalidade vivida.
Meus olhos fixos vidravam
a paisagem refletida.
Meus braços finos,
minhas mãos manchadas
tremiam
tremiam de frio.
Corpo molhado
Carne fatigada
Veias estufadas
Não, não era inverno, não era outono.
Era apenas delírio em pleno verão.
Era o inferno surgido de repente
- presenteado  pela picada de um mosquito.




Paulo Francisco

Importado do Cores e Nomes

Passaredo


O céu fica mais bonito de se vê quando se transforma em quintal de passarinhos.
Voam maritacas
Voam rolinhas roxas
Voam sabiás
Voam bem-te-vis
E tantos outros que fica difícil fechar os olhos mesmo com o vai e vem da rede.



Paulo Francisco

Adaptação








Quando cheguei, eu não vi o mar - era noite
havia no céu uma coleção de estrelas
e o barulho das ondinhas numa métrica perfeita 
O cheiro da brisa, aos poucos, desopilava minha alma
e a cobria de pele marinha.
Devagar fui voltando às origens:
Guardei meu corpo emprestado de montanhês 
e tomei de volta o de náutico.
Mas com o passar do tempo, a saudade foi batendo
o humor foi morrendo e o coração foi querendo
a diversidade de cores nas penas dos pássaros
a aragem noturna acariciando o meu corpo 
e as sombras dos morros e das florestas
transformando meus pensamentos

Quando cheguei, eu não vi o mar - era noite 
havia no céu uma coleção de estrelas
e a lua despontando entre as montanhas.



Paulo Francisco

Visão




Seus olhos ressaltaram
- além da textura da imagem -
o sol, o pescador e as gaivotas.
Atrás das embarcações
 - cobertas pela neblina -
o horizonte  perdido
na imensa e densa
 cortina cinza.

Paulo Francisco

Calmaria



Às vezes, minhas cores ficam claras
e neste meu céu de outono encontro gaivotas
agitadas
agitadinhas
dançando pras ondas, querendo brincar
Quase sempre, elas furtam minhas cores
brincam de esconde-esconde
deixam-me bobo de desejo - querendo namorar
De quando em quando, minhas cores são furtadas
por gaivotas agitadas - agitadinhas - que gostam de brincar
E neste tempo de mar calmo, eu, um montanhês nato,
fico a olhar para a planície querendo viajar...
Não sei se vou de trem, não sei se monto uma caravana
atravesso desertos e montanhas
ou se pego carona nas asas das agitadas gaivotas
que de quando em quando vem me visitar.

Paulo Francisco

Rasante



Estávamos sentados na varanda quando avistamos um gavião. Ficamos ali olhando, admirando o planar da rapina. Era absoluto. De repente um voo rasante e uma presa em suas garras. Olhamos um para o outro e não falamos nada. Continuamos a olhar o céu, planando, num voo imaginário e absoluto.

Paulo Francisco

Voo livre




Gosto da sensação de liberdade.
Gosto de poder voar sem trela no pé.
Peia!? É somente para as bestas
Vago sem rumo. Sou folha solta carregada pelo vento.
Gosto desta sensação de vadiagem provisória.
Turista de mim mesmo. Liberdade adquirida e merecida.
Ah, isto não quer dizer que eu quero esta sensação pra sempre
– estaria mentindo se eu dissesse que sim.
Claro que eu quero, um dia, quem sabe, ter alguém pra dividir esta liberdade;
voar juntos de asas coladas e sermos vadios um do outro.
Mas enquanto isto não acontece, vou voando por aí,
atravessando mares e montanhas.
Peregrinando, descobrindo, vivendo.
Então:
Deixei-me no rio e fui pro mar
Deixei-me em casa e fui viajar
Deixei-me solto e fui voar
Carrego comigo o meu passarinho sem ninho...
E nesta vida de sozinho recebo muitos carinhos pelos caminhos percorridos.
Sim, sou assim: vadio de mim, tenho meu coração vagabundo como amigo e companheiro.
Sou marinheiro só - sozinho -  arrasto o tamanco e sigo no balanço do mar.
E no tombo do navio. ah, no tombo do navio! eu me crio, eu vivo sem culpa, sem desculpas
- e, por enquanto, nesta liberdade premiada, vou seguindo, me permitindo
- Estou do mar.
Gosto da sensação de liberdade.
Gosto de poder voar sem trela no pé.
Peia!? É somente pras bestas!
Vago sem rumo. Sou folha solta ao vento.
Gosto da vadiagem provisória.
Turista de mim.
Liberdade adquirida, merecida.
E enquanto o amor não chega
vou criando asas, vou voando
É por aí.

Paulo Francisco

Fugitivo




Vai passar
tudo passa
 nada fica no lugar
tudo se movimenta
 o coração bate em ritmos variados
o corpo em lenta transformação responde ao tempo

Vai passar
 tudo passa
 nada permanece no mesmo ponto
é conto - nada é eterno
 nem muito alegre - nem muito triste
nem muito esperto - nem desesperado 
 nem muito agito - nem tudo calmo

Vai passar
passa o vento forte
passa a lua cheia
passa o passarinho apavorado
passa o gavião desafiando quem lhe magoou
Tudo passa até mesmo a dor

Já estou muito tempo por aqui
vou bater asas e voar
Procurar um novo canto pra morar

Tudo passa nada é pra sempre
sou forasteiro - chego e saio de repente
sou foragido ...

Eu sei...

tem recompensa a quem me pegar
tenho marca registrada
um sinal de nascença que vai me entregar

Corro de medo
 vivo a fugir
não quero ser amordaçado
atado
sequestrado
mesmo que este seja o meu fim.

Vai passar
 tudo passa
 até mesmo esta liberdade
sou vagante,
sou errante
não tenho morada fixa

Acredite!
não vou morar em teu coração

Acredite!
mesmo que seja mentira essa declaração.


Paulo Francisco

Tom maior




Minhas montanhas acordaram verdes.
Elas nasceram hoje numa esperança ton sur ton.
Acordar e acreditar que tudo vai dar certo
– esta é a minha montanha.
Caminhar em trilhas estreitas, subir e descer,
para chegar ao cume – esta é minha esperança.
Desejos alcançados; desejos a serem alcançados;
desejos antigos; desejos nascidos; simplesmente desejos.
Nesta metáfora, não sou o montanhês
– Eu sou o passarinho.

Paulo Francisco

Insônia






Tudo calmo - parado
O céu que antes era negro,começa a se transformar num azul de metileno
Ouço, espaçadamente, carros deslizarem na pista molhada pelo orvalho da madrugada
Tudo parado - calmo
O azul de metileno se desintegra manchando o espaço aéreo
E, lá longe, o galo insiste em anunciar que já é quase dia
Tudo...quase tudo imóvel
Percebo ruídos, zumbidos
sei lá...
Sinto minha respiração que ofega não me deixando no absoluto silêncio
[Mas já não mais importa]
O céu começa a ser invadido pelos primeiros raios
Ouço vozes,conversas,risadas
são os boêmios chegando em plena madrugada de quinta
são os trabalhadores indo para mais um dia de labuta
E entre ruídos diversos
portas de aço rangendo de bares e padarias contribuindo com a sinfonia do bom dia
E, para completar, os pássaros cantam em minha janela
e eu que já não tenho mais o silêncio absoluto
me viro e durmo.

Paulo Francisco

Aconchego




















Na onda noturna - barulhinho
respiração cadenciada - soninho
sonho livre - passarinho
no colo dela - só ninho.

Paulo Francisco



(Importado do Cores e Nomes)

Monotonia

















Aqui em casa é tudo tão igual
a mesma paisagem a admirar
um verde escuro a me cegar
mata preservada na sala
lindas montanhas no quarto
Gaviões, coitados,solitários a planar
Passarinhos, espertos, a fugir
E tudo tão igual...
O Sol, bem cedinho vem me dá bom dia
A Lua, tão meiga, me vigia a noite inteira
E quando a natureza zanga-se comigo
esconde de minha visão tudo isto
Mas, como sou bonzinho, ela, a natureza,
vem vigiar-me num véu prateado
e quando percebe que estou triste
ela chora...
Eu sei - vejo marcas na janela.
são lágrimas a escorrer
Aqui em casa é tudo tão igual... eu sei.

Paulo Francisco

Verticalidade





Lá estavam todos:
                       o passarinho
                                       o gavião
                                                 as nuvens
                                                               o avião
Lá estávamos todos:
                         o sol
                               o avião
                                       as nuvens
                                                   o gavião
                                                             o passarinho
                                                                            e o menino deitado ao chão.



Paulo Francisco

Inspiração




Encantam a minha insônia os cantos dos passarinhos matutinos
Já passam das cinco  - A poesia acorda luminosa
Ouço, além dos pássaros, a voz nervosa do Concretista comunista
Ele fala; Ele explica; Gesticula; Declama!
Ouço mais que poesia - Ouço além dela - Além dos passarinhos.
Ouço-me além de meus olhos - Minha alma fala comigo.

Paulo Francisco

O tempo e o vento




Entrego-me ao tempo-vento
na esperança de voar.
Voa passarinho, Voa!
Corta o vento - Desafia o tempo
Bata as asas - Crie redemoinhos
Se transforme num menino.
Voa! Voa passarinho, voa!
Voemos nós neste tempo imperativo.

Paulo Francisco


(Importado do Cores e Nomes)

Passarinho


Foto roubada do blog da Lis



Sou livre - semeador de vidas
voo e canto naturalmente
o meu lar é reciclado - faço o meu próprio ninho
a mata é minha terra - o céu é meu caminho
sou livre, sou alado - sou um passarinho.

Paulo Francisco

(Importado do cores e nomes)